Escrevo…

25-08-2009

(por Cadu Braga)

 

Escrevo em meio à madrugada e ao fumo, meus presságios da poesia ainda morta

De trago em trago, resplandeço-me da inspiração frenética que não acompanha o ritmo de meus dedos,

De leves carícias no papel branco, nascem sentenças ainda limitadas, e que assim sempre serão…

Por que falsos poetas teimam em ficar horas de suas vidas tentando expressar coisas que palavras não se dignificam?

Afinal, se a língua limita o sentimento, por que tantos escrevem?

Escrevo inicialmente, para manter-me vivo, atento à minha desatenção, para ascender a um plano que não se ascende. Logo escrevo pela simples contradição da vida de nossos dias, se a vida que nos é posta, valoriza primeiramente a “pronto-entrega”, as reações imediatas e sem reflexão, escrevo pela pré-meditação das expressões dos pensamentos, e escrevo pelo anseio utópico de escrever o que não se escreve.

Eis que sou cego, em uma terra de surdos mudos. Eis que meus pensamentos se substanciam como os botões das flores do cactos…

Assim continuo a escrever, escrevendo dou vida à minha existência, e de sentimento em sentimento, nasce algo…

Que todos venham ver!

Nasce hoje o messias para todos os loucos desse mundo regrado, moral e “certo”; que se fez falso poeta, que se faz sentir, mas nunca se fará digno de meras palavras, por isso muitos não vêem, por isso muitos não lêem, e por isso menos ainda escrevem.

Ah! Se soubessem o bem que se faz presente nessa droga de prazeres incalculáveis, porém a loucura e o frenesi, logo dão lugar a um palco de cortinas fechadas, aonde o público não vê os personagens.

Muitos denominarão esta obra, de desabafo, autoterapia, entre tantas outras sistematizações possíveis, para denominar algo que não passa de um escrito sobre o que não se escreve. Este messias recém nascido, aguarda ansioso na barra da saia da mãe, por irmãos, para que juntos cresçam, e se desenvolvam… pobre criança, mal sabe que os rumores sobre sua casa, são de que a família foi tocada pela esterilidade. Mas se este se fez vivo, outros virão… assim a criança sente o doce afago da mãe Esperança.

A madrugada segue, e continuo a escrever… já sinto-me mais aliviado, esse tóxico corre por minhas veias, e desperta-me.

Acendo um cigarro, este que será essencial nesse momento de desconectividade, junto à brasa está minha anti-empiria, e junto ao fumo está meu anseio por escrever…

Não sei por quanto tempo durará, porém sei que escrever está diretamente ligado com os sentidos. Sinto, logo sempre tentarei inutilmente me expressar.

E aí está meu sentido para viver. Não o meu sentido para existir.